Para muito médico brasileiro que chega à Itália, o curso de formação específica em medicina geral parece a porta mais acessível: três anos, bolsa paga, e ao fim dele o título que habilita a atuar como medico di medicina generale — o médico de família do sistema público italiano.
Parece. O que elimina a maior parte dos candidatos estrangeiros não está na prova, e sim na primeira linha dos requisitos de admissão.
O requisito que ninguém lê primeiro
O edital exige cidadania italiana ou de um Estado-membro da União Europeia. Para quem não a tem, a norma abre quatro portas — e só quatro. É preciso ser cidadão não comunitário e estar em uma destas situações:
- com direito de soggiorno ou direito de soggiorno permanente, na condição de familiar de cidadão comunitário (art. 38, parágrafo 1, do Decreto Legislativo 165/2001);
- titular de permesso di soggiorno UE per soggiornanti di lungo periodo (art. 38, parágrafo 3-bis);
- titular do status de refugiado;
- titular do status de proteção subsidiária.
A consequência prática é dura e raramente dita: um médico brasileiro que esteja na Itália com permesso di soggiorno comum — de trabalho subordinado, de estudo ou de autônomo — não preenche o requisito, por melhor que seja o currículo. O permesso UE per soggiornanti di lungo periodo exige, como regra, cinco anos de residência regular.
O requisito de cidadania ou de título de permanência deve existir na data de encerramento das inscrições, conforme o artigo 5 do Decreto Ministerial de 7 de março de 2006.
Os requisitos acadêmicos, que vêm depois
Preenchida a condição acima, o candidato precisa de três coisas:
- diploma de laurea em medicina e cirurgia — e aqui entra o reconhecimento do título estrangeiro, que é procedimento próprio;
- habilitação ao exercício da profissão na Itália;
- inscrição no albo dos médicos cirurgiões de uma Ordem provincial italiana.
Os prazos são diferentes entre si e isso importa no planejamento. O diploma precisa estar em mãos até o dia anterior à prova. A habilitação e a inscrição na Ordem, até o dia de início oficial do curso — e a falta de qualquer uma delas nessa data significa não admissão. A inscrição no albo correspondente de outro país da União Europeia permite participar da seleção, mas a regularização continua obrigatória antes do início, sob pena de decadência da lista de aprovados.
Como é a prova
Prova escrita única: 100 questões de múltipla escolha sobre medicina clínica. O horário de início é o mesmo em todo o território nacional — 10h —, ainda que cada região organize o próprio concurso e a própria sede.
No ciclo 2026-2029, a prova foi marcada para 21 de outubro de 2026, conforme publicação do Ministério da Saúde na Gazzetta Ufficiale n. 48 de 26 de junho de 2026, quarta série especial.
A bolsa e o regime
Ao médico admitido corresponde uma bolsa prevista pelo Ministério da Saúde no valor bruto anual de € 11.603,50. O curso dura três anos, exige dedicação em tempo integral e tem frequência obrigatória nas atividades teóricas e práticas, realizadas em estruturas do sistema público e em consultórios de medicina geral indicados pela região.
Tempo integral com frequência obrigatória significa, na prática, que não há como conciliar o curso com outra atividade clínica relevante — um dado que pesa no planejamento financeiro de quem tem família na Itália.
O concurso é regional
Não existe um concurso nacional único de ingresso: cada região publica o seu edital, com seu número de vagas e seu calendário, ainda que a prova aconteça no mesmo dia e horário em todo o país. Na Toscana, o edital 2026-2029 ofereceu 200 vagas, com inscrições exclusivamente online, entre 27 de junho e 27 de julho de 2026, com acesso por SPID.
Quem pretende concorrer precisa, portanto, acompanhar o Bollettino Ufficiale da região onde quer atuar — e ter o SPID funcionando antes de a janela abrir, porque ela dura semanas, não meses.


